Orientação

Correr por terrenos totalmente desconhecidos e encontrar mais rapidamente possível pontos de controle somente com o auxílio de um mapa e uma bússola: assim é a orientação. Une atividades físicas e mentais intensas.

Para que um orientista sinta-se capaz de realizar percursos, com grau de dificuldade elevada, necessita conhecer, treinar e empregar técnicas adequadas.

Diferente de uma corrida rústica, por exemplo, na orientação não há um itinerário comum a ser percorrido, existem apenas pontos de controle que são passagem obrigatória para os atletas. Cada um deles deve navegar por rotas de sua própria escolha e encontrá-los no menor tempo possível.

Várias técnicas de orientação são usadas para escolha de rotas e localização de pontos de controle, no entanto, há cinco regras básicas: azimute, distância, curva de nível, check point e ponto de ataque.

Azimute

A primeira e mais importante técnica, conhecida como azimute, é determinação da direção a seguir.

O ângulo formado pelo norte magnético, indicado pela agulha imantada de bússolas, e uma direção é chamado de azimute. Mas na orientação não é necessário medir os graus para o destino desejado.

Com o mapa na horizontal e a bússola sobre ele, gira-se o mapa até que as linhas do norte magnético do mapa (na cor azul) e a agulha imantada estejam paralelas. Após isso, a reta formada pelo ponto de origem e o de destino indica a direção a seguir.

Direção a seguir (2 -> 3)

Deve-se tomar cuidado para que as linhas do norte do mapa e a agulha imantada estejam paralelas e no mesmo sentido, evitando o contra-azimute.

É comum, iniciantes no esporte, tentar "orientar o mapa" girando a bússola e sua agulha teimosamente continuar indicando o norte magnético.

Para apanhar algo que encontra-se sobre uma mesa, distante da mão, caminha-se ao seu redor e não gira-se o móvel. Da mesma forma deve-se agir com o mapa, ele deve estar constantemente orientado, independente das curvas e dos giros executados pelo orientista em deslocamento.

Cabe salientar que ao desviar um obstáculo durante a progressão de um ponto a outro, tem-se uma nova direção para o objetivo que se quer alcançar.

Distância

Como os demais mapas, os específicos de orientação também são confeccionados em escala, normalmente usam-se as escalas 1:10.000 ou 1:5.000.

Para obter-se a distância entre um ponto e outro no terreno, basta medir no mapa e multiplicar pela escala. Em uma escala de 1:10.000, um centímetro no mapa equivale a 10.000 centímetros no terreno, ou seja, 100 metros.

Durante o percurso mede-se a distância no terreno contando os passos duplos: acrescendo uma unidade à contagem a cada toque de um determinado pé no solo.

Cada orientista deve possuir seu passo duplo aferido. Para isso, percorre-se 100 metros várias vezes, contando a quantidade de passos dados nessa distância, fazendo uma média ao final. Há dois modos: um correndo e outro andando, com toda certeza serão diferentes e deve-se executar a aferição para ambos os casos.

Simplificando: em um mapa com escala 1:10.000, um centímetro equivale a cem metros no terreno, que por sua vez é igual à quantidade de passos dados nessa distância. Meio centímetro corresponde a metade dos passos, e assim por diante.

O mapa representa apenas distâncias planas, deve-se levar em consideração a inclinação do terreno. Isso aplica-se tanto para a medida quanto para a contagem de passos.

Outro modo de medir distâncias no terreno é sua avaliação, porém esta técnica requer treinamento maior.

Curvas de nível

Com a finalidade de demonstrar o relevo, os mapas de orientação possuem as curvas de nível. São linhas marrons que representam "cortes" horizontais no terreno a cada determinada altitude: chamada eqüidistância. Normalmente de 5 em 5 metros.

Terreno X curvas de nível

Esta técnica exige maior treinamento que as demais. Com o mapa em mãos, observando suas curvas de nível, o orientista deve possuir a habilidade de "enxergar" o terreno em três dimensões. A partir dessa "visão", usa-se o relevo a seu favor, evitando subidas e descidas desnecessárias, bem como, auxiliando a navegação.

Em muitas circunstâncias, analisando apenas as curvas de nível isoladamente, chega-se a conclusão que a melhor opção de rota entre dois pontos de controle não é a linha reta, e sim, desbordando elevações e depressões.

Check point

Quando realizamos uma viagem longa de automóvel, vamos ao longo do caminho identificando as diversas cidades que estamos passando. Elas servem de referência, ponto de checagem (check point), para sabermos se estamos na direção correta, quanto já percorremos e quanto resta para chegar ao destino pretendido.

Da mesma forma em um percurso de orientação, ao longo da rota checam-se os diversos detalhes do terreno comparando-os aos do mapa para certificar-se de que o itinerário percorrido está correto e quanto resta para chegar ao próximo controle.

Ponto de ataque

A abordagem de um ponto de controle requer maior atenção, desse modo, evita-se passar por ele sem avistá-lo, sobretudo naqueles que estão colocados em pequenos acidentes do terreno ou exigem maior habilidade técnica.

Para isso, busca-se um acidente próximo ao ponto de controle, que seja nítido no terreno e no mapa, denominado ponto de ataque, a partir do qual inicia-se uma nanevação precisa na direção do objetivo desejado.

Ponto de ataque

É aconselhável, nessa fase final da rota, diminuir a velocidade de corrida. A dificuldade do ponto de controle indicará o grau de atenção a ser dispensado nesse momento.

Mesmo que em algumas oportunidades o ponto de ataque esteja um pouco afastado da direção do controle, é importante passar naquele ponto por segurança.

Outras Técnicas

Toda vez que um orientista comete algum erro em sua navegação, com certeza o mau emprego de uma das cinco técnicas básicas foi a causa. Estas devem ser aplicadas a todas as rotas indistintamente, mas existem outras que podem ser usadas para atingir um nível mais competitivo.

Durante a execução de uma pernada, deslocamento entre um ponto de controle e outro, é interessante estar precisamente orientado ao longo de todo trajeto. Para isso, faz-se uso do polegar indicando no mapa o local exato onde o orientista se encontra no terreno, progredindo ambos de forma coordenada. Os pontos de checagem podem e devem complementar esta técnica.

Dificilmente consegue-se precisão absoluta em um azimute, sobretudo em longas distâncias ou pela dificuldade imposta por uma vegetação mais densa ou mesmo por acidentes do terreno. Nesses casos, chegando próximo ao controle: ele está à direita ou à esquerda? Para evitar esta incógnita, ou mesmo por segurança, costuma-se usar um erro proposital e então tem-se a certeza de que o ponto a localizar encontra-se em determinado lado.

Erro proposital

Normalmente emprega-se o erro proposital para o lado oposto ao da saída para o próximo ponto, a fim de evitar ter que realizar meia volta e possível incorreção na direção a seguir após o controle.

Bom seria se ao tentar localizar um controle tivéssemos um "balizamento", bastaria apenas correr até o ponto desejado. Em algumas circunstâncias isso é possível, o mapa e o terreno possuem linhas de referência, basta identificá-las. Elas podem ser transversais ou longitudinais e indicam o limite da distância ou a direção a seguir.

Linha de referência

Terrenos bastante acidentados, seja pelo relevo ou outros aspectos, resultam em mapas ricos em detalhes. Vistos dessa maneira, podem dificultar escolhas de rotas e a navegação dos orientistas. No entanto, pode-se usar a técnica de simplificação do mapa, na qual usa-se somente os aspectos mais relevantes ou nítidos, desprezando os demais. Desse modo, a orientação torna-se menos complexa e pode inclusive revelar linhas de referência.

Mapa complexo

Apresenta-se na próxima figura o mesmo mapa da anterior, porém observando apenas aquilo que "interessa", tornando a navegação "simples".

Mapa "simplificado"

Após o orientista adquirir uma certa dose de experiência no esporte será capaz de analisar o mapa e identificar se o ponto de controle a ser localizado é mais ou menos difícil, atribuindo-lhe um grau de dificuldade antes de iniciar a pernada. Sendo fácil ou permitindo esta possibilidade, o atleta poderá optar por uma orientação grosseira, dando mais ênfase à corrida, ou seja, aumentando a velocidade para alcançar um tempo menor de percurso. Diferente disso, há oportunidades em que a situação exige orientação precisa em detrimento da rapidez, quando a navegação recebe atenção maior.

Lembrando que os objetivos da orientação são encontrar os pontos de controle e executar isso no menor tempo possível, as técnicas de orientação precisa X orientação grosseira dão mais ênfase a um ou outro aspecto.

Muitas vezes emprega-se a orientação grosseira no início de uma pernada, partindo em uma direção geral que vai sendo corrigida ao longo da rota, e ao aproximar-se do ponto de controle usa-se a orientação precisa, para localizá-lo imediatamente.

Outra técnica bastante útil, porém de longo e difícil treinamento, é a memória fotográfica, ela pode ser usada para memorizar o mapa em uma única observação ou para mentalizar a rota que o orientista está realizando, ou ambas simultâneamente. A primeira serve para que o atleta com o "mapa na cabeça" preste atenção somente no terreno, para que nenhum detalhe dele lhe escape, inclusive o controle. A segunda é utilizada em caso de erro, permitindo refazer a rota mentalmente em busca da correção, sem a necessidade de retornar fisicamente até um ponto conhecido, reduzindo a perda de tempo nesses casos.

É importante salientar, sobretudo aos iniciantes neste esporte, que as várias técnicas apresentadas neste texto foram abordadas de maneira suscinta e isolada. Porém, o emprego delas na navegação é sempre simultâneo especialmente as cinco básicas, que podem e devem ser complementadas com as outras que se julgue mais adequadas a cada situação imposta ao orientista.

Corrida X Raciocínio

Ao realizarmos qualquer esforço, seja físico ou mental, nosso organismo queima oxigênio. Dependendo da intensidade da atividade o consumo também aumenta ou diminui.

Corredores de rústica desenvolvem um esforço físico que consome quase a totalidade do oxigênio de seu organismo, desse modo, a atividade mental fica em segundo plano.

Diferente desses atletas, os orientistas devem permanecer com o cérebro constantemente oxigenado para que a atividade mental não seja prejudicada, pois necessitam dela para a complexa aplicação das técnicas de orientação. Portanto, neste esporte, o limite da velocidade desenvolvida não é a capacidade física, mas a capacidade de raciocínio.

Encontrar, sem ultrapassar, o tênue limite da velocidade máxima com raciocínio adequado para uma navegação segura exige do orientista muito treino, experiência e auto-conhecimento.

 

Boa sorte em seus percursos!

 

Autor: Ernani Antonio Becker Ritt